Autismo, psicanálise e a culpabilização materna

Sempre me divirto olhando o que as pessoas digitam no Google pra chegar até o meu blog. Aparecem coisas como “LARGATA vira pupa”, “lagarta vira pulpa”, “lagarto vira pupa”, “pupa vira lagarta”, e por aí vai. Mas, esta semana, algo me chamou a atenção: alguém chegou ao meu blog procurando por “autismo culpa da mãe”. O que me levou a escrever esse texto. E, pra ser o mais precisa possível, fiz uma “pesquisinha” para escrevê-lo. 🙂

Culpar a mãe não é coisa nova. Na verdade, culpar a mulher não é. Que o digam as milhares de mulheres que foram mortas na Idade Média, acusadas de bruxaria, nas fogueiras da Inquisição. Alguns séculos depois – mais precisamente no séc XIX – Sigmund Freud divulgou a teoria de que as experiências no início da vida da criança poderiam causar distúrbios no desenvolvimento. E a figura central dessa idéia é, claro, a mãe. E, aqui, começa a aparecer a ligação disso tudo com o autismo.

Apesar de, provavelmente, esse transtorno sempre ter existido, só foi inicialmente descrito no século XX, quando foi considerado como “retardo mental” ou “psicose infantil”. Nos anos 40, uma nova hipótese ganhou força com o psiquiatra Leo Kanner. Em uma releitura freudiana, ele colocou a culpa do autismo no que ele chamou de “mães geladeira”. Em uma entrevista para a Time Magazine, em 1960, ele as descreveu como “somente capazes de descongelar o suficiente para produzir uma criança”. Leo Kanner tirou essa brilhante conclusão, dentre outras coisas, por observar a dificuldade que as mães de crianças autistas tinham em brincar com seus filhos. O que era a consequência, virou causa. As mães tinham dificuldades de brincar com os filhos PORQUE eles eram autistas, e não “as crianças se tornaram autistas porque as mães não sabiam brincar com elas”!

Mas essa idéia ainda foi reforçada e popularizada, posteriormente, pelo psicólogo Bruno Bettelheim. Em seus artigos, escritos nos anos 50 e 60, ele afirmava categoricamente que o autismo era causado pela frieza da mãe em relação à criança. O que ambos, Kanner e Bettelheim, pareciam ignorar, é que essas mesmas “mães geladeira” produziam filhos autistas e típicos!

Após os anos 60, essa idéia começou a perder força nos Estados Unidos. Isso aconteceu, principalmente, devido aos avanços na ciência e na genética.

Sabe-se, hoje, com todas as pesquisas científicas a respeito do assunto, que há vários genes (e mutações) ligados ao autismo. Se quiser ler mais sobre isso, clique aqui. Muitas crianças, inclusive, já apresentam sintomas desde bebês, o que descarta, por completo, a questão da influência da mãe (ou do pai).

Acontece que, por incrível que pareça, mesmo após tantas descobertas científicas a respeito do papel da genética, ainda tem gente que leva a teoria da mãe geladeira a sério. Na França, país extremamente ligado à psicanálise, há uma campanha nacional para mudar o método de tratamento e diagnóstico de autismo – baseado na Psicanálise. Por causa desse tipo de abordagem, dezenas de milhares de crianças são diagnosticadas erroneamente ou ficam sem diagnóstico. E o tratamento equivocado para o autismo – baseado em psicanálise, e não em terapia comportamental – faz com que a situação dos autistas na França seja extremamente precária. Para se ter uma idéia, há 17 vezes mais estudantes autistas nas universidades do Reino Unido que na França. E a taxa de inclusão escolar de crianças autistas na França é de 20%, versus 60% de outros países desenvolvidos. Se você quiser ler mais sobre isso, clique aqui.

No Brasil, também há os adeptos dessa teoria arcaica. Quem, aqui, quando desconfiou de algo errado no desenvolvimento do filho, não ouviu do pediatra que isso poderia ser “falta de estímulo”? Muita tv ou dvd? Ora bolas, se há falta de estímulo, alguém não está estimulando. Nós sabemos ler nas entrelinhas!!

E, para mostrar como ainda há uma corrente forte de psicanálise no Brasil, saiu na Folha, há pouco tempo, o comentário de uma psicanalista e psiquiatra considerando como fatores ambientais causadores de autismo coisas como “exposição excessiva a TV e/ou computador em detrimento do contato humano afetivo”. Se você ainda não viu essa, clique aqui.

E, para encerrar, vou levantar um último fato que surgiu: uma pesquisa recente indicou que mães obesas tem mais chances de dar à luz crianças autistas. Fui procurada por algumas mães por causa desse assunto e aqui está o resultado da minha pesquisinha a respeito:

  1. A diferença entre o número de mães não obesas e obesas com filhos autistas não foi estatisticamente representativa. Foi, na verdade, muito pequena. O que quer dizer que é preciso estudar mais o assunto para que se tenha uma conclusão com 100% de certeza.

  2. Correlação não é causa. O que eu quero dizer com isso é que a mãe ser obesa pode não ser a causa do filho nascer autista, mas pode haver um terceiro fator influenciando em ambos: a obesidade da mãe e o autismo do filho (de fatores ambientais a genéticos).

  3. Raramente, alguma condição complexa como autismo é causada por apenas um fator. O estudo pode ter achado uma pequena correlação, mas não mostrou que todas as mães obesas têm filhos com atrasos no desenvolvimento. Portanto, há outros fatores a considerar.

E, para terminar, gostaria de deixar a seguinte mensagem:

A tarefa de ser mãe já é suficientemente difícil sem acreditar que se é responsável por cada fator da vida da criança, inclusive os relativos ao desenvolvimento cognitivo e neurológico.

Espero que, se alguém chegar ao meu blog, agora, procurando por “autismo culpa da mãe”, que seja pra ler que isso não faz o menor sentido. De verdade.

Imagem: Shutterstock

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