Transtorno Opositivo Desafiante (TOD): diagnóstico e tratamento

Ao longo dos anos, tenho recebido muitos encaminhamentos por suspeita de Transtorno Opositivo Desafiante (o TOD). São crianças e adolescentes com histórico persistente de baixa tolerância à frustração, atitude de oposição a regras e figuras de autoridade, agressividade verbal e física. São reações e atitudes que afetam o comportamento social, pois aparecem no contexto de interação com outras pessoas, na convivência com a família, na escola e demais ambientes em que se relacionam.

Há boas razões para que o assunto seja tratado com muita seriedade. Além de todo prejuízo social e educacional para a própria criança, pode haver consequências para os colegas eventualmente agredidos também, motivo de grande aflição para familiares e educadores. E infelizmente, os estudos mostram que os problemas não se restringem à fase escolar. Estatísticas mostram que crianças com TOD apresentam um risco muito maior de manifestar na juventude e vida adulta dificuldades consideráveis no trabalho e no gerenciamento de suas finanças, envolvem-se mais em situações de gravidez precoce, violência doméstica, abuso de álcool e outras drogas, são mais sujeitos a lesões e acidentes, tendem a ter mais problemas com a lei e são mais vulneráveis a problemas psiquiátricos.

Ao contrário do que prega o senso comum – cujo entendimento do tema geralmente se resume a atribuir esses comportamentos à falta de educação, de limites ou mesmo à falta de “cinta” – os estudos científicos indicam uma combinação complexa de fatores genéticos, biológicos e fatores psicossociais envolvidos na origem do problema (e, na verdade, o uso frequente da “cinta” consta entre os elementos que podem agravar o quadro).

O que diz a ciência

Há muitas evidências que apontam para alterações no neurodesenvolvimento. Pra começar, existe uma forte associação do quadro de TOD (cerca de 90% dos casos) com outras condições neuropsiquiátricas. Sua relação com o TDAH, particularmente, é conhecida há muito tempo e algumas pesquisas já identificaram inclusive um componente genético comum entre eles. Numa proporção menor, vemos o envolvimento de outras condições, como a esquizofrenia, por exemplo.

As informações acumuladas pela neurociência também tem contribuído para ampliar nossa compreensão do problema, principalmente pela análise dos aspectos cognitivos identificados nas crianças e adolescentes com TOD. Tem sido documentado um desempenho inferior em relação ao esperado na avaliação neuropsicológica (especialmente déficits verbais) e dificuldades na aprendizagem e na leitura. A relação de dificuldades na cognição verbal com o TOD faz muito sentido se considerarmos o papel da memória verbal e do raciocínio verbal abstrato para o desenvolvimento do autocontrole. (Traduzindo os termos técnicos: cognição verbal refere-se ao processo pelo qual adquirimos conhecimentos através das palavras – como acontece quando recebemos instruções a respeito de alguma coisa que devemos executar. A memória verbal refere-se à nossa capacidade de resgatar essas informações em um momento posterior àquele em que as recebemos e raciocínio verbal abstrato significa o modo como integramos essas informações com outros elementos do contexto atual para elaborar uma resposta comportamental). Da mesma forma, um acesso mais restrito ao repertório verbal (limitação do vocabulário, dificuldades de identificar e utilizar as palavras adequadas) determina uma menor capacidade de expressar frustração ou negociar durante uma situação de conflito, predispondo a um rompante agressivo.