Um dia intenso: imersão com Eric Hamblen

Fim das férias, fim da mudança, e aqui estou eu, de volta, para contar pra vocês um pouco do que aprendemos com a visita do terapeuta americano Eric Hamblen. Eric tem mais de 20 anos de experiência trabalhando com crianças autistas nos Estados Unidos, utilizando, principalmente, as metodologias ABA e RDI. Achei mais fácil colocar os principais aprendizados em tópicos para facilitar. Prontos? Aqui vamos nós!  

1. A parte sensorial é MUITO mais importante do que imaginávamos.

Segundo o Eric, Theo está constantemente buscando estímulos sensoriais. Não é à toa que a principal mania dele é ficar jogando objetos no chão sem parar.  É como se o desenvolvimento dele tivesse “agarrado” nessa fase de organização sensorial.

O problema disso é que um sistema sensorial tão desorganizado torna o aprendizado mais difícil no dia a dia. Um exemplo é que ele consegue realizar algumas atividades solicitadas com perfeição quando sentado na mesinha (por exemplo, parear cores iguais). Mas, quando é solicitado a fazer a mesma coisa de pé – mudando seu centro de gravidade, a percepção de equilíbrio do corpo e o planejamento motor necessário – ele já não consegue.

Eric sugeriu trabalhar bastante a parte sensorial do Theo e, para as terapeutas que lidam com ele, é importante começar a dificultar as coisas que ele já faz bem enquanto sentado (colocá-lo para fazer de pé, ou afastar a cadeira da mesinha).


Esse olharzinho “de lado” é bem típico de quando ele está tentando organizar, no cérebro, a quantidade de estímulos que está recebendo. Nesse caso, andar a cavalo mexe bastante com a parte do sistema vestibular (ligado ao equilíbrio).


 Tudo o que estimula o lado sensorial consegue engajar mais o Theo. Nesse vídeo, dá pra ver como ele fica feliz em fazer pintura usando as mãos, e não um pincel.

2. O Connector ajuda a criança a se organizar melhor e a deixa mais aberta a aprender. Tenho que confessar: lutei muito contra meus próprios preconceitos nesse caso. Eu achava esse negócio estranho, com jeito de coleira e sem fundamento nenhum. Até eu ir à palestra onde o Eric explicou que o objetivo principal do Connector NÃO é contenção. Tem um resuminho nesse vídeo aqui:

Trocando em miúdos: de acordo com a querida Marie Schenk (responsável por trazer o Eric ao Brasil), o connector é uma ferramenta para trabalhar a coordenação de corpos, que é a base da comunicação dinâmica, atenção e referência. Funciona muito diferente de ligar a criança pelo pulso ou peito/costas.

“Conectados através do quadril é que apresentamos o mundo às crianças quando elas têm idade para estar no colo, dos 6 meses aos 2 anos de idade. Por essa conexão, as crianças desenvolvem as bases das habilidades sociais. As crianças com autismo precisam de “uma segunda chance”, pois é muito provável que, por questões sensoriais que desorganizam a sua percepção, elas não puderam desenvolver essas habilidades sociais na idade típica.” Marie Dorion Schenk

A explicação me pareceu lógica, não é nada invasivo ou que vá trazer riscos para o meu filho, então, resolvemos tentar. Eu, sinceramente, achava que o Theo JAMAIS deixaria a gente colocar isso nele. A dica do Eric é “vá com segurança e simplesmente coloque, ignorando os protestos”.

Simples assim: se você parece inseguro ao colocar o connector no seu filho, ele vai pensar “se ela está com essa cara preocupada, esse negócio não deve ser bom, não!”. Fizemos como ele orientou. Basicamente, sorrimos sempre e continuamos a andar, embora ele fizesse alguns sons de protesto de vez em quando. E o resultado foi esse que vocês podem ver aí embaixo, no hipermercado ao lado de casa: Theo já completamente tranquilo e adaptado ao Connector em pouco mais de 5 minutos!

O que o Eric explica no vídeo é que, com o connector, você pode usar a sua mão para fazer um carinho na criança (ao invés de contê-la) e usar um vocabulário mais amplo e positivo…totalmente o contrário do que acontecia quando íamos com o Theo ao supermercado.

Nossa rotina, normalmente, era: um coloca as coisas no carrinho enquanto o outro corre atrás do Theo. Não era muito agradável pra nenhuma das partes. Muito cansativo pra nós e chato pra ele, que ficava sendo contido a todo momento e só ouvia “volte aqui”, “não corra”, “fique perto da gente”.

Outra coisa legal que o Eric contou é que, quando você segura uma criança pelo braço, o cérebro, imediatamente, recebe uma mensagem parecida com “perigo”. Tentar segurar a criança pelo braço a coloca, imediatamente, na defensiva.  Com o connector, Theo se sentiu mais tranquilo por ter um adulto no controle da situação e ficou mais aberto para prestar atenção e aprender.

Aliás, o que você faz enquanto está com o connector é a chave. No vídeo abaixo, Eric vai nomeando para o Theo tudo o que ele via no supermercado. (Notem que o Theo empurrando o carrinho, tranquilo desse jeito, foi a coisa mais surreal que eu já vi!)

3. O aprendizado para crianças mais novas funciona melhor com jogos/brincadeiras durante a rotina diária e é altamente experiencial.

“Theo está em um estágio de desenvolvimento onde ele está aprendendo a organizar seus sistemas sensorial e motor. Por isso, aprender através de experiências com movimento e atividades “com a mão na massa” são mais relevantes pra ele nesse momento.” Eric Hamblen 

Theo passa grande parte do dia fazendo atividades sentado na mesinha, tanto na escola quanto em casa. O que o Eric recomendou, no entanto, foi reduzir o tempo de atividade sentado e trazê-lo para situações do dia a dia, contextualizadas, para que ele aprenda melhor. No restaurante, o Eric fez o Theo ir comigo até o buffet e acompanhar a comida sendo colocada no prato. Isso o ajudou a ficar mais tranquilo, a se sentir envolvido no processo e a aprender o que estava sendo servido.

“O Theo precisa estar no meio das coisas. Ele precisa sentir a tinta nos dedos, explorar o parque com suas pernas. Ele precisa ajudar os adultos a fazer tarefas diárias como colocar as coisas no carrinho do supermercado.” Eric Hamblen

Segundo o Eric, você deve usar suas mãos sobre as da criança para ajudá-la a realizar a tarefa. Quando sentir que ela está começando a fazer força física, você pode diminuir a sua. Vocês podem ver a demonstração disso nesse vídeo:

4. Um bom reforçador pode ser um ótimo aliado

Aqui, entramos um pouquinho em ABA. Um bom reforçador ajuda a criança a realizar o que está sendo pedido. Para muitas delas, esse reforçador pode ser um brinquedo favorito. Theo não gosta de brinquedo nenhum e tem interesses REALMENTE restritos. Por isso, um dos únicos reforçadores que funciona com ele é Tic Tac.

Estou explicando isso tudo porque sei que muita gente não gosta de usar alimentos como reforçador. Bem…nesse caso, não temos muitas opções. 🙂

Mas, como alternativa, o Eric mostrou como ir introduzindo “reforçadores físicos” para o Theo. No caso dele, que gosta muito de estímulos sensoriais, brincadeiras de cócegas, ou de sacudir/balançar também podem servir como reforçadores. Nesse vídeo, o Eric consegue fazer o Theo imitá-lo sem dizer uma só palavra, só usando reforçadores (o Tic Tac e as brincadeiras).

5. A co-regulação emocional é essencial

Theo, normalmente, fica nervoso quando as coisas não saem do jeito que ele planejou. Nesses momentos, ele tenta ficar sozinho para se livrar dessas emoções que ele não tolera bem. Jogar as coisas no chão pode ser uma das formas dele tentar “se regular” emocionalmente sozinho.

Segundo o Eric, isso, algumas vezes, é ok. No entanto, precisamos ensiná-lo a se regular em um relacionamento com um adulto. Isso é uma coisa que todo bebê aprende a fazer desde cedo (já viu como todo bebê se acalma no colo da mãe?). Mas as crianças autistas “pulam” essa fase do desenvolvimento em algum momento. O resultado é que, se ele continuar “se regulando” sozinho dessa forma, pode ser que jogar objetos não seja mais eficiente no futuro…e há um risco de que isso evolua para mordidas e comportamentos de auto-agressão.

Eric nos ensinou a segurar o Theo firmemente nesses momentos de raiva, falando baixinho no ouvido dele que “nós não estávamos bravos…estávamos ali pra ajudar”. Demorava uns minutos mas, em algum momento, ele se acalmava.  


Theo e Eric no restaurante


E, pra finalizar…

Como vocês podem perceber, foi um dia muito intenso, de muito aprendizado e de revisão de muitos conceitos. Talvez, por isso, eu não tenha escrito o post imediatamente. Precisava digerir um bocado de informação! Posso adiantar pra vocês que, segundo o próprio Eric, Theo é um dos maiores “cases de sucesso” com o Connector que ele já viu. Aqui em casa, algumas coisas que já mudaram com o auxílio dessa ferramenta:

  1. Theo não “foge” mais da mesa na hora das refeições

  2. Pela primeira vez na vida, consegui ler um livro inteiro pra ele! Antes, ele virava as costas e saía na primeira página.

  3. Durante nossa ausência nas férias, meu pai (de 71 anos) ia com o Theo ao supermercado à pé, na maior tranquilidade.

  4. O próprio Theo já pega o connector e entrega na minha mão quando quer passear ou quando começa a se sentir inseguro no meio de uma situação.

Claro que não coloquei tudo aqui. Meu objetivo não era deixar um “testamento” com cada detalhe, mas o que considerei mais importante de várias horas, vídeos e um relatório de 3 páginas que o Eric me deixou. Muitas coisas vão ser adaptadas na rotina de terapias do Theo…mas isso são cenas dos próximos capítulos! 🙂  

Pode, também, te interessar:

Página do Eric: http://www.paceplace.org/ 

Página sobre o Connector (com link para compra): http://connectorx.com/index.html

Texto no blog da Marie sobre o Connector: http://umavozparaoautismo.blogspot.com.br/2011/04/connector-rx.html

Texto da Marie na Revista Autismo sobre co-regulação emocional: http://www.revistaautismo.com.br/edicao-2/capacidade-de-co-regulac-o-emocional-e-autismo

Alguns outros vídeos da imersão que eu não coloquei no texto:

  1. Diferença do engajamento do Theo com reforçador e sem: http://www.youtube.com/watch?v=oM20jF9xHPw&feature=plcp

  2. Eric consegue fazer Theo vocalizar usando imitação e reforçador: http://youtu.be/pZGWaN51YVM

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