O que aprendi em 5 meses de campanha eleitoral

“Privilégio é quando você pensa que alguma coisa não é um problema só porque não é um problema pra você pessoalmente”. foto: twitter


Comecei meu trabalho na “vida pública virtual” com o o que achei que seria um hobby: escrever. Registrar neste blog nossa trajetória com o Theo, o autismo, os erros e acertos. O que eu não imaginava em 2012 é que tantas mães precisavam de uma coisa aparentemente simples, mas até então meio escassa na blogosfera: acolhimento. Colo. Uma palavra amiga. Alguém pra dizer que tudo ia ficar bem, que as coisas iriam melhorar. E isso foi natural pra mim, que sempre gostei muito de gente, de ajudar, de ser útil.

O que nunca imaginei é que essa rede de apoio cresceria tanto. Em poucos meses, comecei a receber mensagens de pessoas de todo o país e até de fora dele. Virei, como gosto de brincar, o “ombudsman” do autismo e de várias outras deficiências. Passei a saber detalhes sobre a epidemia de abandono paterno em caso de crianças com deficiências, das dificuldades diárias com a inclusão escolar, do preconceito, da sobrecarga das mães presenteadas com o rótulo de “mães especiais”, da ausência de um Estado que deveria prover educação e saúde.

O conhecimento desta realidade gerou textos, livros, palestras, piqueniques inclusivos, ativismo.

No dia 8 de maio de 2018, anunciei nas minhas redes sociais que era “pré candidata a deputada federal pelo estado de São Paulo”. Eu nunca fui política e nunca tinha concorrido a nenhum cargo público antes. E não imaginava a jornada que percorreria nesses cinco meses até o resultado final, que me trouxe 43.123 votos, a maior parte deles no interior do estado, e que me colocaria como quinta mais votada dentro do partido e segunda suplente.

Como recebi do partido a notícia de que não teria dinheiro para a campanha, acionei os quase 200 mil seguidores que me acompanhavam em várias redes pedindo ajuda. Não era preciso muito: um espaço cedido para rodas de conversa e amigos ou conhecidos convidados a comparecer. Ou, quem sabe, ajuda na preparação de um pupanique, como chamo nossos piqueniques inclusivos. Fui recebida de braços abertos e, em questão de semanas, vi minha agenda lotada de compromissos marcados por uma rede de apoio que, finalmente, viu ali uma chance de ter representatividade real na política.

Viajei por todo o estado de São Paulo. Viajei, também, dentro da própria capital, que congrega milhões e milhões de pessoas de realidades tão distintas. E aqui estão algumas coisas que aprendi nesses 5 meses absurdamente cansativos, talvez mais para a mente do que para o corpo.

Mães estão sobrecarregadas além do limite do aceitável

O abandono paterno é mesmo epidêmico. Mulheres se veem sozinhas como únicas responsáveis pela manutenção do lar e pelo cuidado com a criança ou adolescente com deficiência. Ninguém cuida de quem cuida. É bem mais fácil fazer elogios vazios como “você é uma mãe especial”, virar as costas e torcer pra tudo dar certo. Em 10 dias de rodas de conversa, fiquei sabendo de 3 tentativas de suicídio de mães de autistas. TRÊS. Em DEZ DIAS. E as que não ficamos sabendo?

Pessoas estão achando aceitável viver de migalhas. E pessoas acham aceitável que pessoas vivam de migalhas

“Minha filha está na escola regular. Não está aprendendo nada, mas pelo menos está socializando”. “Meu filho faz terapia no CAPS. É só meia hora uma vez por semana, mas pelo menos tem alguma coisa”. Relatos assim foram constantes. E me partiam o coração. O “complexo de vira-lata” está estampado na face de pessoas que têm uma realidade tão difícil. É como se dissessem “nasci na periferia, sou pobre, é isso o que tem pra mim”.

Na mesma periferia, podemos ver uma igreja evangélica em cada esquina. E é fácil de entender seu sucesso: lá, as pessoas se sentem vistas como seres humanos, reconhecidas, importantes. E a vida aqui pode ser horrível, mas o consolo fica para a mansão que espera no paraíso.

Não sabem que são cidadãos, não sabem que têm direitos. Não sabem que merecem mais que isso.

Do lado de cá, pessoas bradando nas redes sociais que “não é preciso cotas, bolsa família, ou criminalizar homofobia”. “Somos todos iguais, todos têm os mesmos direitos, não precisa de lei específica pra A ou B”. E, em meio ao incômodo dessa leitura indigesta, dei de cara com a foto que ilustra este texto: “Privilégio é quando você pensa que alguma coisa não é um problema só porque não é um problema pra você pessoalmente”.

A educação está na UTI. E a educação inclusiva é só a ponta do iceberg

Salas superlotadas com uma média de 40 a 50 alunos, problemas reais de assistência social que envolvem abuso sexual na família, familiar preso por tráfico de drogas, violência. Em meio a este caos, encontra-se o aluno de inclusão, para quem não há professor auxiliar como a lei determina. Muitas vezes, as próprias mães vão para a escola cumprir este papel. A “mãe especial”, de novo. Aquela que, muitas vezes, precisa trabalhar para sustentar sozinha o filho.

Escolas se virando com um cuidador que vai de sala em sala apenas para levar as crianças de inclusão ao banheiro e ajudar na hora da alimentação. Escolas onde falta de papel higiênico a papel para imprimir provas. Professores tirando licença por estafa mental. Educação sucateada, inclusão escolar para inglês ver.

As pessoas e suas bolhas. Com tudo o que coloquei acima, muita gente não quer sair de sua bolha. Não quer ver a realidade do outro, nem quando o outro é 80% da população que depende exclusivamente do SUS ou 90% que vai para a escola pública.

Minha (dolorosa) conclusão é a de que muita gente se acostumou com a desigualdade em que vivemos, e não se importa. É bem mais fácil pensar que o outro está nessa situação porque não “se esforçou” o suficiente. É bem mais fácil falar que “todos temos os mesmos direitos, todos somos iguais”, quando a realidade mostra que uns são mais iguais que os outros, uns têm mais direitos que os outros.

E agora?

Ainda vou pensar nos meus próximos passos, mas uma coisa é certa: não vou virar as costas para a realidade que vi de perto.

Nesses últimos meses, uma cena foi frequente: eu chegava em casa após uma roda de conversa, via meu filho sentadinho no sofá, brincando com o Ipad, com o cachorro aconchegado no cantinho, e sentia uma culpa enorme. O choro foi frequente. O fato é que não dá pra eu seguir com a minha vida como se a realidade que eu conheci não existisse. É impossível.

Pessoas moradoras de regiões periféricas, em situação de vulnerabilidade precisam de ajuda. E é mais do que ajuda material. Precisam ser politizadas, não no sentido eleitoral. Precisam entender que são cidadãs. Elas têm direitos. E tudo bem cobrar esses direitos! Ninguém precisa viver de migalhas e achar normal.

Do lado de cá, espero que ninguém ache normal que o outro viva de migalhas. Espero que muita gente acorde do discurso do “somos todos iguais”. Se a dor do outro não te incomoda, você já se desumanizou e nem notou.

P.S: Tivemos um resultado incrível para uma primeira candidatura e trabalhando com pouco dinheiro. A todos vocês que me ajudaram como polinizadores/as, jamais vou ter como agradecer! Vocês moram no meu coração! <3 #nossosfilhossãocidadãos

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