Eu ainda não falo. Mas entendo tudo.


Daí, lembro de uma coisa que meu pai me falou, de manhã, enquanto eu jogava meu cavalinho no chão. Ele começou a me contar que ia fazer uma viagem por causa do trabalho. Só por causa do trabalho. E que ele não gostava nem um pouco de ficar longe de mim e da mamãe. Mas que ele ia voltar. E que, enquanto ele estivesse fora, a gente iria se falar pelo computador. Não entendi bem essa parte de “falar pelo computador” e deixei para pensar nisso depois.

Mas, ali, enquanto ele arrumava a mala, percebi do que se tratava. Ele estava juntando as roupas para essa tal viagem. Não quero meu pai longe…tentei atrapalhar. Pulei na cama, toquei um terror, fiz muito barulho, tentei puxá-lo para a sala, quis sair, qualquer coisa para que ele parasse de arrumar aquela mala. Não adiantou…

Mais tarde um pouco, mamãe começou a colocar meu sapato e disse que iríamos dormir na minha avó. “Mas a mamãe vai dormir lá com você”, ela explicou. “E o papai?”, foi o que eu quis perguntar. Mas, de novo, as palavras não saíram da minha boca.

Enquanto meus pais e meus avós faziam um lanche na cozinha, comecei a tentar entender tantas coisas juntas: meu pai vai viajar, vou dormir na minha avó com a mamãe, vou ficar com muitas saudades do meu pai. A mala era grande…quanto tempo vou ficar sem vê-lo? E eu não sabia se ria ou se chorava.

Tenho muita dificuldade em lidar com emoções complexas. Então, o jeito que achei para liberar um pouco o meu estresse foi com uma crise descontrolada de gargalhadas. Minha mãe lançou um olhar para a minha avó e disse “ele está desregulado”. O que isso quer dizer?? Ela me abraçou e disse que estava ali comigo e que nunca ia sair de perto de mim. Isso foi bom…consegui ficar um pouco mais calmo.

Meu pai saiu da cozinha. Saí correndo atrás, imediatamente. Você não vai fugir, não! Que história é essa de viajar?? Vou manter o olho grudado em você! Colo no meu pai, quase segurando em sua perna. Ele vai ter que me levar junto.

Ele vai ao banheiro. Não ouse fechar essa porta! Tô indo junto com você!

Já está mais escuro. Tomei um banho. Minha mãe e meu pai deitam comigo na cama da minha avó. Mamãe fala, de novo, que vai dormir comigo aqui. Olho para o meu pai imediatamente. Quero perguntar “e você?”. Mas as palavras não saem. Eles percebem o meu olhar e se encaram de uma forma estranha.

Apagam a luz. Não, eu não vou dormir! Não vou dormir porque meu pai vai fugir assim que eu apagar! Acendam essa luz agora! Não consigo me controlar. Choro muito! Muito! Estou realmente bravo! Acho que é a única forma de mostrar que não, eu não vou dormir e deixar meu pai fugir assim!

Depois de algum tempo de choro, acho que eles desistem. Acendem a luz, se olham, novamente, de uma forma estranha, e me avisam que vamos dar uma volta de carro. Meu pai coloca meu sapato. Fico um pouco mais tranquilo…afinal, pelo menos, estamos juntos!

Meu avô vai dirigindo. Meu pai senta ao lado dele, na frente. Atrás, tenho minha mãe de um lado e minha avó do outro. Todos falam baixinho. Vovó faz um cafuné na minha cabeça de vez em quando. Meus olhos estão pesados…as luzes da rua me incomodam. Vou fechá-los um pouquinho…que delícia esse balanço do carro. Papai está ali, bem na frente. Estou seguro.

Quase dormindo…abro, de leve, o olho direito…só dá tempo de ver um avião passando pelo carro e descendo, na direção de um local cheio de pequenas luzes…elas confundem minha vista…tudo se mistura…dormi.

Acordo cedo, na cama dos meus avós. Vovó me diz que a minha mãe está no outro quarto. Percebo que meu pai já não está. Não choro mais. Pelo menos eu consegui ficar perto dele até o último minuto. Vou esperar ansioso esse negócio de “falar pelo computador”…  

(Os conteúdos produzidos por Andrea Werner neste site e disponibilizados no site são protegidos por copyright e não podem ser reproduzidos, total ou parcialmente, sem autorização expressa da autora, mesmo citando a fonte)   Foto: arquivo pessoal  

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