Felicidade e memórias afetivas

Há duas semanas, comecei a tentar algo que me parecia impossível: abolir o adoçante no café, no chá, em tudo o que fosse possível. Já entrei nessa competição com alma de perdedora: tenho plena consciência da formiguinha que sou e de como o sabor docinho me dá conforto.

Em uma das viagens rápidas que fazemos aos fins de semana, paramos em um café. Meu marido, que é meu maior incentivador nesse quesito, colocou no centro da mesa um copo com cappuccino. Só cappuccino. Nada de açúcar ou adoçante. E me desafiou a tentar. Lá fui eu, já de antemão fazendo careta.

A primeira coisa que meus lábios tocaram foi a espuminha do leite. Logo em seguida, tudo meio junto e misturado. E, no momento em que senti o gosto do leite com a espuma o café, voltei ao início dos anos 80.

Frutal é o nome da cidadezinha onde meu pai nasceu. Na prática, ele nem nasceu na cidade, mas no sítio onde meus avós moravam. A terra do triângulo mineiro  é vermelha como coloral. Gruda nas roupas e nos sapatos, principalmente das crianças, que sobem em árvores, correm atrás das vacas no pasto, se enfiam no meio do mato, riscam o chão para brincar de amarelinha.

E foi ali, entre vacas, morcegos que dormiam no teto do quarto, galinhas, abacaxis e muita comida feita no fogão a lenha que passávamos um bom pedaço das férias da infância.

Nós 4 e nossa infância cheia de terra vermelha e leite de vaca fresco!

Nós 4 e nossa infância cheia de terra vermelha e leite de vaca fresco!


Lembro-me de ser acordada com um aviso de que “o vô estava quase levando as vacas para o pasto”, portanto, “melhor correr pra ainda dar tempo de pegar o leite”. Ah, o leite! Quentinho, saído direto da vaca pro copo! Jamais, naquela época, eu questionaria o quão saudável isso era de fato, mas era uma delícia!

Chegávamos na cozinha, onde minha avó nos dava uma caneca daquelas de alumínio, com um tanto de café açúcar no fundo. E lá íamos nós, calçados em nossos chinelos, para a cerca do curral. Meu avô amarrava o bezerro nas pernas traseiras da vaca e, ali mesmo, tirava jatos de leite direto para dentro das nossas canecas recém preparadas. Subia aquela espuma doce e quente, com um gostinho de café. Nenhum café da manhã em hotel cinco estrelas substituiria aquela situação para a minha pessoa de menos de um metro à época!

Ah, tudo que é bom acaba…eu já sabia. E, para repetir sem ter que voltar à cozinha e reabastecer a caneca de café e açúcar, eu deixava um restinho do que tinha acabado de beber no fundo, devolvia ao meu avô, e lá vinha mais um jato de leite. E esse repeteco tinha gosto de…cappuccino praticamente sem açúcar.

Isso é o que eu chamo de “memória afetiva”. Algum gosto, cheiro ou toque que me lembra de alguma situação que mexeu, de alguma forma, com as minhas emoções. Essa memória afetiva tão gostosa do leite que saía direto da vaca me ajudou a abandonar o adoçante no café com leite.

Algumas memórias afetivas têm gosto de saudade. Se eu fechar bem os olhos, lembro-me perfeitamente do abraço da minha tia Anilda, irmã do meu pai, pessoa tão especial e querida, que faleceu pouco antes do meu casamento. Chegávamos a Frutal, na sua casa de chão vermelho, e éramos recebidos por aquele abraço de urso, tão quente, tão acolhedor.

Se eu fechar os olhos, também lembro do sabor do macarrão que a tia Anilda preparava com tanto carinho.

Tenho um arquivo mental com várias gavetas onde guardo minhas memórias afetivas. As que são negativas – como o perfume que usava alguma pessoa que me fez muito mal – deixo nas gavetas mais de baixo, menores, escondidas. Não pretendo acessá-las. Faço o possível para não ter que abri-las. As gostosas ocupam as gavetas da frente, com destaque, com honra. Pretendo tirá-las do arquivo com frequência, acariciá-las, colocá-las pra tomar sol para que durem bastante.

Enquanto eu acessava a memória afetiva do leite, no Café durante a viagem, olhei para o meu garotinho de olhos grandes e curiosos. Espero, com todas as minhas forças, que todas as experiências às quais temos exposto nosso filho sirvam para encher seus arquivos de muitas, milhares de memórias afetivas gostosas, cheirosas, acolhedoras, inesquecíveis.

Mas, devido à sua sensibilidade diferenciada, com certeza, Theo vai precisar de um arquivo bem maior. É que suas memórias terão muito mais cores, sabores, sons e sensações que as minhas!  

(Os conteúdos produzidos por Andrea Werner e disponibilizados neste site são protegidos por copyright e não podem ser reproduzidos, total ou parcialmente, sem autorização expressa da autora, mesmo citando a fonte)

Foto: arquivo pessoal

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