Nosso autismo é assim

Meu filho se chama Theo. Ele faz 8 anos em Junho. 

Theo é branquinho, comprido, cabeludo, exibe um sorriso luminoso e tem os olhos mais expressivos que eu já conheci em toda a minha vida. Quando está concentrado ou preocupado, arqueia as sobrancelhas. Quando está pensando ou processando alguma informação, fica paradinho olhando de lado.

Theo é diferente.


Quando você o vir em meio a outras crianças da mesma idade, vai perceber isso. Theo não conversa…ele faz vários barulhinhos para expressar suas emoções. Theo não brinca de carrinho, ou de Lego, ou de videogame. Ele gosta de jogar objetos e ver como eles pulam, que som fazem. Theo pode passar horas no Ipad vendo vídeos ou jogando alguns poucos aplicativos, principalmente os de quebra-cabeças de animais. E, quando se cansa do Ipad, ele fica bravo com o tédio. Mas também não aceita as opções que lhe oferecemos para acabar com ele.

Meu filho não tem amiguinhos. Ele observa, da janela, as crianças brincando em nossa rua. Quando vejo ele fazendo isso, disfarço minha dor e vou tentar distraí-lo. Suas tentativas de brincar com as crianças da rua foram todas frustradas. Ele tenta se aproximar, mas não consegue dizer “oi”. Faz seus barulhinhos e recebe olhares tortos de volta. E as crianças se afastam. Nessas horas, eu rezo pra que ele não perceba isso…mas acho que ele percebe, sim. Meu filho é esperto.

Theo demora um pouco para processar algumas informações. No último sábado, estávamos passeando de carro e meu marido comentou sobre a viagem que faria nesta semana. Theo continuou olhando para a rua e fazendo seu “iiiihhhh” insistente, como se nem estivesse ouvindo. Meia hora depois, já em casa, Theo afastou as cadeiras e engatinhou devagarzinho para baixo da mesa. Deitou ali de bruços. Pude ver suas costas se movendo e comecei a ouvir soluços. Theo estava chorando…e não era choro de raiva, ou de birra. Era um choro doído, com soluços e lágrimas. Foi quando ele juntou as palavras aos significados e aquilo doeu: papai iria viajar. Papai iria para longe.

Theo é autista.

Ele tem uma busca sensorial constante. Ele sente as coisas de uma forma diferente. Ele vê o mundo como uma grande experiência para os sentidos. Na maioria das vezes, ela é boa. Quando resolve transformar a casa em seu playground sensorial, ele joga água em toda a pia, derruba o que quiser dentro das panelas enquanto cozinhamos, atira coisas pela janela, vira um vidro inteiro de café solúvel na mesa, come massinha e espuma de banho.

Água, pra ele, é o paraíso. E é ela que eu uso para acalmá-lo nos momentos de crise.

A mesma criança que faz cara de nojinho para a folhinha verde no prato passa a mão no chão do estacionamento do shopping e lambe.

Essa necessidade desenfreada de “sentir mais” atrapalha muito seu aprendizado. Como prestar atenção ao que está sendo falado se o corpo pede por sensações visíveis ou palpáveis todo o tempo?

Theo tem, também, uma colônia de formigas morando em seu popô. E elas não o deixam ficar quietinho por muito tempo. Às vezes elas hibernam e deixam ele sossegado. Mas, quando estão mais ativas, não deixam ele sentado nem por 5 minutos. Ele chega a suar de tanto correr de um lado para o outro.

Theo sente menos dor. Bem menos que o normal. Já descobri que ele tinha feito um corte feio no pé porque achei um rastro de sangue na cozinha. Ele não reclamou. Recentemente, arrancou um dente bambo como se fosse um carrapato e o arremessou no meio da sala. E, às vezes, nos faz carinhos meios doloridos. Pra ele, deve ser gostoso.

Theo ainda precisa de suporte para se vestir, para tomar banho, escovar os dentes, comer. Os progressos vêm devagar, e nunca saberemos até onde eles poderão ir. Continuamos tentando.

Theo ama muito: os avós, os pais, o professor, a Lola. Dá gargalhadas deliciosas quando está brincando. Abraça, beija, se aconchega. 

Theo vê o detalhe do detalhe. Aquilo que ninguém notou. A manchinha minúscula no canto do assoalho da sala.

Theo é um garotinho feliz apesar de todas as dificuldades. 

Theo é autista. Por ele ser autista, somos pessoas melhores hoje. Theo tocou a todos nós de uma forma impossível de traduzir. E toca a todos que o conhecem.

Em troca, damos a ele todo o amor do mundo. Dizemos todo dia o quanto ele é especial e o quanto o amamos. Mas, infelizmente, isso não é suficiente. É é por isso que fomos atrás de tratamento desde que ele era pequeno. Tratamento para que ele melhore sua parte motora, sensorial, para que aprenda a se comunicar, para que aprenda a lidar melhor com suas emoções.

O Pedro não fala nada. O Eduardo só repete o que os outros dizem. O Joaquim, quando fica bravo, se agride. O Matheus enfileira os brinquedos. O Fernando está na escola regular e não precisa nem de mediadora. 

Cada autista é único. Assim como cada ser humano o é.

Muito autistas adultos têm sua voz. Por enquanto, eu e meu marido somos a voz do Theo. E estamos fazendo o possível pra que ele consiga se expressar sozinho no futuro. Se não for possível pela voz, que seja pelo computador ou pelo tablet. 

Alguns autistas adultos afirmam que, para eles, o autismo é um dom, uma bênção, ou um jeito diferente de ser. Para o meu filho, o autismo é um jeito diferente de ser, sem dúvidas. Mas também tem seu lado de deficiência. E esta parte precisa de auxílio, de tratamento, de adaptações.

Existem muitos autismos. Este é o nosso. “Nosso” porque somos uma família. Os desafios de um são os desafios de todos. E as vitórias de cada um também são comemoradas em conjunto.

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