Sobre autismo, fingir ser normal, e o que isso tudo nos custa

Não, isso, não é um coelho.

Não, isso, não é um coelho.


Esse é o texto de uma blogueira americana, mãe de um garotinho autista chamado Charlie. Como esse post fala perfeitamente com o último post que escrevi aqui sobre “O que é ser normal pra você”, resolvi traduzir. Eu posso estar completamente fora da realidade, viajando, esperando o impossível…mas concordo com tudo o que está escrito aí. Reforço o que disse no último texto: vou sempre ajudar meu filho a superar suas dificuldades para que seja independente. O resto é resto.  

Sobre autismo, fingir ser normal, e o que isso tudo nos custa

(Tradução livre) Eu tenho meia dúzia de versões escritas desse post não publicadas na minha pasta de rascunhos. Eu nunca tenho certeza se usei o tom adequado, ou se eu realmente gostaria de contar essa história, ou se os paralelos feitos fariam sentido fora da minha cabeça.

Daí, outro dia, a Jess do blog “Diary of a Mom” escreveu esse post e, quando eu terminei de ler, meu coração estava pulando, minhas mãos estavam tremendo e, nos últimos 2 dias, todas as enormes emoções que ele me trouxe estiveram martelando na minha cabeça. E eu percebi que, simplesmente, preciso escrever isso e teclar em publicar para me libertar dessas emoções e ter alguma paz. Então, apertem os cintos, aqui vamos nós…

Quando eu tinha 15 anos eu me apaixonei por outra garota. Era perfeito e incrível, como um primeiro amor é, mas o resto…todas as coisas que isso iria significar para a minha vida…eu não estava pronta para essa parte e eu saí correndo para qualquer direção que eu pensava que pudesse me ajudar a escapar disso. Eu me tornava cada vez mais infeliz e meus pais perceberam que eu precisava de ajuda: se eu não ia falar com eles, então, eu ia ter que falar com alguém. Então, eles me mandaram pra terapia, esperando que eu iria encontrar um lugar seguro para elaborar o que quer que estivesse me incomodando.

Eu contei ao terapeuta sobre meu relacionamento com essa outra garota e sobre como nem um segundo passava sem que eu estivesse pensando nela ou querendo estar com ela, mas que eu não queria ser gay. Eu disse que temia que meus amigos e família me odiassem ao ficar sabendo, que eles iriam me achar nojenta e não iriam querer ficar perto de mim. Eu contei a ele sobre como eu tinha começado a namorar um garoto para fazer esses sentimentos irem embora, mas isso parecia me fazer sentir ainda pior. E foi nesse momento que esse homem, que me conhecia há apenas 2 sessões, me informou que, ao mesmo tempo em que ele acreditava que algumas pessoas podiam ser gays, estava claro, ao olhar pra mim, que eu não era, realmente, uma delas. Ele acreditava, ao contrário, que meus pais, provavelmente, nunca me ensinaram noções apropriadas dos papéis de gênero e que eu fiquei confusa. Isso era algo – ele me disse – que iríamos trabalhar juntos.

Então, duas vezes por semana, foi isso que nós fizemos. Em detalhes excruciantes, nós discutimos os jeitos “certos” de ser uma garota e os jeitos “certos” de sentir e agir perto de outras garotas e garotos, incluindo aquele “garoto especial” que eu iria achar. Vou poupar vocês dos detalhes…eles são, ao mesmo tempo, absurdos e humilhantes.

Não é que eu não sabia que ele estava errado e que eu era, realmente, lésbica. É que eu só tinha 15 anos e, naquele ponto, a coisa mais importante do mundo pra mim era ser como todo mundo, ser normal, e é isso que ele estava me oferecendo. Então, eu joguei minha intuição de lado e, semana após semana, minha reeducação para a normalidade prosseguiu.

Até que, em um dado momento, meus problemas com abuso de álcool e drogas cresceram ainda mais, à medida em que eu tentava abafar as partes de mim que eu não gostava, e isso ficou mais urgente do que meu aprendizado sobre como ser uma garota de verdade.

E em um certo momento, quando as mentiras e a dissimulação e a vergonha se tornaram maiores do que eu podia suportar, eu contei aos meus pais. Ao mesmo tempo em que não foi fácil pra eles de primeira, eles me ofereceram amor e aceitação sobre quem eu era. Eles podiam ver o que as outras alternativas estavam fazendo comigo.

E, agora, que já faz muito tempo, e eu estou certamente feliz com quem eu sou hoje, eu pergunto isso: E se, naquele primeiro dia, aquele terapeuta tivesse dito pra mim: “Vai haver alguns obstáculos pra você lidar lá na frente, mas você precisa saber que você é perfeita do jeitinho que você é”. E se ele tivesse dito pra mim: “Sim, algumas pessoas podem tirar sarro de você, algumas pessoas podem não entender ou gostar de você se comportar de forma diferente do que elas esperam. Mas essas pessoas estão erradas, e eu nunca serei uma delas. Você sempre terá um lugar seguro para ser quem você é aqui comigo”. 

E se, ao invés de tentar me consertar naquele dia, ele tivesse me dado alguns livros escritos por adultos gays para que eu pudesse ver as possibilidades de pessoas como eu vivendo vidas felizes? E se ele tivesse me direcionado para um grupo de adolescentes gays e lésbicas para que eu pudesse conhecer e conversar sobre isso com pessoas como eu? E se o objetivo tivesse sido me amar, me dar suporte, me garantir que eu era do jeito que eu tinha que ser ao invés de tentar me consertar? Qual versão teria sido mais efetiva pra mim?

Qual versão seria mais efetiva para nossos amados autistas?

É um paralelo perfeito com o autismo? Não. Mas, por deus, eu vejo isso com muita frequência. Eu nos vejo ensinando nossos filhos autistas que eles estão quebrados. Eu nos vejo ensinando a eles que a melhor forma de se dar bem no mundo é aprender a se passar por normal, ao invés de aprender a sentir-se bem com quem eles são e lutar pelo direito de serem como são, não importa a quem isso incomode.

Eu sei umas coisinhas sobre fingir ser normal. Eu sei que, às vezes, é útil saber fazer isso. Mas eu também sei que isso sempre tem um preço. Eu sei que, quanto mais você finge ser algo que não é, mais você enterra as coisas que te fazem realmente você, e mais isso te estraga por dentro. Eu sei que ter orgulho de quem eu sou e ter outra pessoa me odiando por isso é muito mais fácil do que tentar esconder isso e acabar odiando a mim mesma.

Nós estamos fazendo isso com nossos queridos autistas frequentemente. Estamos pedindo a eles pra fingir. Estamos dando a eles terapias com nenhum outro objetivo além de aprender a agir como um neurotípico. Estamos pedindo a eles pra agirem de forma mais “normal” porque achamos que isso faz a vida deles mais fácil. Não faz. Não está funcionando assim pelo que eu li aqui e aqui.

Quando eu reflito sobre aquela minha época na escola, folheando fotos minhas sorrindo ao lado de garotos – nos bailes escolares, cujos nomes eu mal me lembro -, eu não tenho dúvidas de que, se tivesse ficado com a única pessoa com a qual eu realmente queria estar naquele tempo, teríamos passado por um bullying muito doloroso.

Não há respostas fáceis quando você é diferente. As pessoas podem ser ignorantes e cruéis. Charlie (meu filho aspie) já sofreu bullying várias vezes. Ele é um alvo fácil. Ele, com frequência, não entende as piadas, ele parece esquisito para as outras crianças, e é fácil deixá-lo nervoso. Se ele aprendesse a interagir de uma forma mais neurotípica, ele sofreria menos bullying? Talvez. Mas essa não é a razão certa para fazer isso.

Como posso dizer a ele que essas pessoas estão erradas por tratá-lo dessa forma porque ele é diferente e, depois, virar e dizer pra ele que, se ele mudasse quem ele é, isso não aconteceria? Eu não posso. Porque ele não está quebrado. Ele não está errado. A resposta é ensiná-lo que ele é bom e perfeito como ele é. A resposta é ensinar a ele que quem faz bullying está errado. A resposta é ensinar a quem faz bullying que ele é bom e perfeito como ele é. A resposta é ensinar a quem faz bullying que isso é errado.

Ensinar alguém a fingir ser normal. Ensinar alguém a disfarçar. Ensinar uma pessoa a ser menos quem ela é não faz o autismo ir embora. Não ver o autismo não significa que ele não está lá. Só significa que pedimos a uma pessoa para cortar pedacinhos de si mesma para NOS deixar mais confortáveis. Significa que pedimos a uma pessoa para odiar uma parte que ela tem porque não conseguimos entendê-la.

Então, eu pergunto de novo. E se aquele terapeuta tivesse me dito que as minhas diferenças faziam parte do que daria profundidade e cor para o mundo? E se o terapeuta tivesse me ensinado que a melhor forma de se dar bem no mundo não era esconder e tentar me livrar das minhas diferenças, mas abraçá-las e celebrá-las? E se ele tivesse me dito que o dia em que eu aprendesse a amar e aceitar a mim mesma seria o dia em que todo o resto pareceria não ter a menor importância? E se tratássemos as diferenças de todo mundo dessa forma? E se?

Link para o post original em inglês: http://outrunningthestorm.wordpress.com/2012/10/10/autism-passing-and-what-it-costs-us-all/

Imagem: Shutterstock

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