Sobre autismo, passado e futuro

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“Não brigue com o passado, não sonhe com o futuro, concentre sua mente no momento presente.”~ Buddha

Uma das músicas favoritas do Theo, desde bebê, é uma que se chama “E se”, do Cocoricó. Como o Theo ama aquele porquinho…

Em uma de suas demonstrações efusivas de felicidade ao ver esse clipe, quando tinha dois aninhos, ele saiu correndo e deu com a cara no aparador. Meu marido disse que foi como ver aquela cena do filme “Carrie, a estranha”: ouviu um grito, correu pra sala e lá estava o Theo, berrando, coberto de sangue no rosto. Cena que nenhum pai deseja ver, claro.

Mas o que eu quero falar hoje não tem nada a ver com o porquinho ou com cortes na testa. Tem a ver com o “e se”.

E se

Se há uma expressão que traz angústia é essa aí. Em geral, o “e se” é usado para se referir a coisas no passado ou no futuro. E ninguém sabe melhor do que uma mãe de criança com autismo ou outra deficiência o que é culpar-se pelo passado e preocupar-se com o futuro.

“E se eu não tivesse deixado ele tanto tempo no DVD?”

“E se eu não tivesse voltado a trabalhar tão cedo após o nascimento dele?”

“E se eu tivesse amamentado por mais tempo?”

“E se eu tivesse comido coisas mais saudáveis durante a gestação?””

“E se eu tivesse reclamado menos das noites sem dormir e curtido mais o meu bebê?”

“E se eu tivesse me informado mais para perceber, mais cedo, que ele era diferente?”

Que atire a primeira pedra a mãe de criança autista que nunca pensou em nenhuma das frases acima. Todas, sem exceção, trazem uma culpa lancinante embutida. E todos esses questionamentos são inúteis. E o são por dois motivos:

  1. O primeiro, e óbvio, é que não podemos mudar o passado (a não ser em filmes como o “De Volta Para o Futuro”)

  2. O segundo é que nada disso causou o autismo do seu filho (ou do meu).

O outro tipo de “e se” que usamos é com relação ao que ainda não aconteceu. São coisas que, eventualmente, passam pela minha cabeça – e pela sua, provavelmente, também. “E se meu filho nunca falar?” “E se ele parar de progredir?”” “E se ele regredir?” “E se ele nunca perder certas estereotipias ou manias?” “E se ele nunca ficar independente?” “E se ele ficar sozinho e desamparado quando eu morrer?” “E se ele começar a ter convulsões?” “E se ele nunca se adaptar à vida em sociedade?” Obviamente, esse tipo de conjectura também é inútil. Só traz sofrimento. Não traz respostas, traz angústia.

Posso estar falando o óbvio, mas ninguém sabe o futuro. (E, se alguém te falar que sabe, é mentira!!!).

Então, queria dividir com vocês uma técnica ninja que eu desenvolvi pra sofre menos com o “e se”. Rá!

Não vou dizer que funciona sempre. Todo mundo tem os dias deprês. Mas eu tenho conseguido fazer isso na maior parte do tempo. Essa é a técnica: Todas as vezes em que eu começo a pensar no “e se” passado ou no “e se” futuro, eu transformo todos esses “e se’s” negativos em positivos. Quer ver só?

“E se já tiverem descoberto um super remédio focado em autismo nos daqui a 5 anos?”

“E se descobrirem um  melhor ainda daqui a 10 anos?” (Dez anos são muito tempo! E o Theo ainda vai ser adolescente!!)

“E se a sociedade mudar e ficar mais inclusiva?”

“E se meu filho tiver sua própria turminha de amiguinhos “diferentes”?”

“E se descobrirem um tratamento novo e muito mais efetivo?”

Tem algumas diferenças aí. A primeira é que todos os “e se’s” são realmente positivos. A segunda é que esperança é essencial na nossa vida. E a terceira é que, grande parte desses “e se’s”, a gente consegue influenciar de alguma forma.

Por exemplo, a parte da “sociedade mais inclusiva”. Que sementinha eu tento plantar com o meu blog? E o que todos vocês, que o leem, têm feito por aí, com os amigos, com a escola, nas redes sociais? Temos que acreditar que isso vai trazer mudanças, não é?

Daí, você está pensando “mas eu não tenho como influenciar na parte da descoberta de remédios e tratamentos”. Você está enganado! Você não precisa ser cientista pra isso. Você só precisar estar disposto a pressionar as autoridades por políticas públicas para tratamento e pesquisa de autismo. Em qual deputado você votou na última eleição? E senador?

É muito mais produtivo parar de se preocupar com o que você não pode mudar ou controlar e se preocupar com o que você, efetivamente, pode fazer. As coisas só mudam se a gente mudar.

Imagem: Shutterstock

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