Theozão: o turista

Semana passada foi o que eles chamam de “half term” aqui na Inglaterra. Basicamente, é uma semana sem aulas (pausa para o pânico materno). Para piorar, meu marido avisa que ia para o México a trabalho. Pensei, pensei e decidi: Theozão ia dar um rolé na Holanda com a mamãe.

Mas por que a Holanda? E é aqui que entra a história de uma linda moça de Manaus chamada Michela. Há alguns anos atrás, ela trabalhava em uma locadora de veículos em Fortaleza. Ficou conhecendo um rapaz holandês (com jeitão de brasileiro) chamado Marco, que trabalhava com turismo. E isso tudo virou uma linda história de amor: eles se casaram, tiveram a Camila e se mudaram de volta pra Holanda, mais precisamente pra uma cidadezinha chamada Zwijndrecht, a apenas meia hora de Rotterdam.


Michela e Marco (arquivo pessoal)


Acontece que a Cami teve diagnóstico de autismo na Holanda. E a Michela, fuçando na internet, caiu nesse blog. E foi uma das primeiras a comentar tudo o que eu postava. Com o tempo, pensei “essa pessoa é legal”. E viramos amigas de Facebook. Batemos muuuuuitos papos virtuais. E ela, como uma boa brasileira, é hospitaleira. Deixou claro que gostaria que fôssemos visitá-la assim que possível. E lá fomos nós!

Rotterdam fica a apenas 50 minutos de avião de Londres. Juntei meu kit viagem: Ipad do Theo, o connector, petiscos e o foda-se (aquele botão que a gente liga quando olham feio pro nosso filho). E foi tudo super tranquilo! Chegando lá, tive o prazer de conhecer pessoalmente a fofa da Shirlene! (Se você não conhece a Shirlene, é porque ainda não leu esse post AQUI). E fomos dar uma volta em um lugar lindo, totalmente “chavão”, cheio de moinhos!  


Eu, Michela, Shirlene, Cami, Theo e Nina (na barriga da Shirlene) 🙂



Theo curtindo um cafuné da tia Shirlene


  Quando pensei em ir visitar a Michela, nunca imaginei que passearíamos tanto. Aliás, achei que ficaríamos mesmo em casa fofocando. Mas eu não sabia do detalhe desse potencial do Marco para agente de turismo. 🙂 E esse casal maravilhoso nos levou a Amsterdam no segundo dia. Theo passeou de barco, ficou encantado com os canais e correu bastante atrás dos pombos, claro.  


Em frente à estação de trem



Olha lá os pombos!



Theo e Cami descansando


No terceiro dia, fomos a uma cidadezinha minúscula e linda da Alemanha chamada Monschau. Uma coisinha fofa, nada turística e escondida entre as montanhas.


Eu, Theo e Cami em Monschau



A cidade vista de cima



Theozão esbanjando charme na praça principal


E, pra terminar, o último dia. Fechando com chave de ouro, fomos a Antwerp, na Bélgica, a apenas 40 minutos de carro da casa da Michela. Theozão pode admirar os painéis de Rubens na Catedral e provou o melhor chocolate do mundo.


Theo e Rubens



Hipnotizado


Tudo de bom e mais um pouco. Uma baita experiência pra mim e pro Theo. Foi tudo tão intenso pra ele que o mocinho ia dormir às 18:30, 19hs! Com certeza, o cérebro estava processando um bocado de informação, e isso é muito positivo para o desenvolvimento dele!

E uma mensagem pra vocês: saiam com seus filhos. Não precisa ser na Holanda nem na Bélgica. Levem ao shopping, ao playground, viagem por perto de casa. Vai haver algum stress? Possivelmente. Nossas crianças não costumam lidar muito bem com frustração, então vão se jogar no chão em algum momento, vão gritar, vão fazer barulhos. Mas esqueça o olhar do outro! Lembra do botão? Ligue! 🙂 O mundo não vai aprender a conviver com nossas crianças e a respeitá-las se as mantivermos trancadas em casa! E elas tampouco vão aprender a se comportar no mundo se não as expusermos a ele!

Para terminar, queria falar um pouco dessa menina linda chamada Camila. Ela aprendeu a falar inglês sozinha (e com um lindo sotaque britânico) apenas assistindo Charlie & Lola na tv!


Camila, a boneca


A Cami é autista muuuuuito leve. Basicamente, o que ainda sobrou de autismo nela:

  1. a famosa “sinceridade” (dei boas risadas com ela)

  2. uma sensibilidade olfativa bem acima do normal. Ela sente cheiros do arco da velha e define tudo que não gosta como “biscoito de queijo”.

  3. uma sensibilidade muito aguçada e uma certa dificuldade em lidar com as emoções, principalmente as ruins.

Cami se apegou a mim desde o início. A foto abaixo diz tudo. Acho que eu estava lá há apenas 2 dias quando ela disse para o Marco em holandês que “estava apaixonada por mim”. 🙂


Bagunça no sofá!


E ela sentiu muito, mas muito mesmo, a aparente “indiferença” do Theo. Chorou algumas vezes questionando por que o Theo não queria brincar com ela, ou dizendo “o Theo não gosta de mim”. E eu tentei explicar…o Marco tentou explicar…a Michela também. Falamos que o Theo ainda não sabia brincar, que ele era como um bebê apesar de ser grande. Não adiantou…

E, um dia antes de irmos embora, ela continuava sensível e chorou muito. Disse pro pai que eu não podia ir embora. Como ela iria falar comigo?? “Papai, ela não pode ir embora! Somos uma grande família!”.

No último dia, ela sentou ao meu lado no sofá, colou o pé no meu e falou “Andrea, I’ll miss you” (Andrea, vou sentir saudades de você). E estava bem chorosa. Aquilo partiu meu coração.

No aeroporto, enquanto esperava o voo com o Theo, eu ia lembrando dela e chorando. Via as fotos e chorava mais um pouquinho.

Queria dizer pro Marco e pra Michela, novamente, o que já disse lá: eles têm um tesouro em casa. Essa menina é uma jóia. Tanta sensibilidade e amor não são encontrados por aí tão fácil. Torço, do fundo do coração, pra que a Cami só encontre pessoas boas e merecedoras de tanto afeto e dedicação! E que sou muito grata à vida por ter conhecido essa família tão especial!

Com certeza vamos nos ver de novo (várias vezes). Como a Cami disse, “somos uma grande família”. Mesmo com a distância. E o Theozão vai se recordar dessa viagem e de vocês pro resto da vida! <3  

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