Dos tratamentos para se “parecer normal”

“Normal significa falta de imaginação, falta de criatividade”. ~ Jean Dubuffet


Foto: Getty Images (http://bit.ly/SqLy2t)


Recebi o seguinte email e gostaria de compartilhar com vocês, juntamente com a resposta que enviei à autora.

Olá Andrea! Aprecio muito o que você vem fazendo e estou com você, apesar de não conviver com ninguém autista. Mas tenho uma dúvida, por favor, não me leve a mal, é só uma dúvida mesmo de quem não conhece o assunto! Vejo que muitas mães de crianças autistas buscam tratamentos com diferentes profissionais, fonoaudiólogos, fisioterapeutas, e tenho lido que os pacientes apresentam melhoras ao decorrer do tratamento. A minha dúvida é em relação ao tratamento psicológico/psiquiátrico, quais são as melhoras que um autista pode fazer, sendo que não tem “cura” (desculpa, me faltam palavras para expressar, sei que não é doença e sim uma disfunção, assim como o própria wikipedia põe). É só isso que quero saber pois tenho um exemplo pessoal: certa vez fiz terapia para uma tal de “depressão” por 2 anos e esta não me ajudou em nada. Depois, mais 6 meses de terapia em que logo de cara a “profissional” disse que eu tinha fobia social, pois além de cara fechada, gosto de ficar sozinha, gosto de trabalhar sozinha e etc sozinha, porém, não tenho medo de pessoas e de me relacionar. Hoje mesmo completei felizes 7 meses de namoro e diversas vezes fui representante de classe na escola. Pra mim foram 6 meses de sofrimento, pois eu sentia que ela estava me JULGANDO por ser como eu sou, pois NASCI assim, nenhum evento me fez ficar desse jeito e que eu tinha mudar logo, para me adaptar à sociedade, ou não passaria mais eu teste algum. É muito difícil mudar uma condição da qual nascemos com. É impossível mudar a cor dos nossos olhos. Nossa pele pode até pegar um bronzeado, mas a cor normal volta… No fim, larguei ambas “profissionais” e hoje me aceito do jeito que eu sou sem neuras e quem não gostar, que me desculpe, mas não vou mudar. Sou MUITO feliz assim e nem quero me encaixar no padrão “normal”. Por isso a minha dúvida com relação à pessoas autistas. Será que elas se sentem julgadas por serem como nasceram e por terem que fazer tratamentos para se parecer com pessoas “normais”? Sei que minha realidade é muito distante das delas, mas quis mostrar minha história para tornar minha dúvida mais clara e assim não causar desentendimentos que possam ofendê-la. Obrigada, Marcela*

Olá, Marcela

Entendi totalmente a sua dúvida. Vou tentar responder por partes.

A parte da psicologia que, de fato, pode ajudar uma criança autista é a comportamental. Mais especificamente, análise do comportamento (a sigla é ABA).

A ideia – bem resumidamente falando – é  identificar comportamentos “complicados” e, através do reforço positivo, ir mudando isso na criança, e ensinando os comportamentos mais adequados.

Por exemplo: o Theo, meu filho, quando foi diagnosticado, mal olhava nos olhos das pessoas, não olhava quando era chamado pelo nome e nem seguia instruções verbais. Esse tipo de comportamento melhorou muito com o ABA. Ele ainda tem muito o que melhorar nesse aspecto, mas já andamos um bom caminho.

Entre os profissionais que aplicam ABA no Brasil, há os mais radicais/rígidos e os mais “soft”. Minha tendência é estar do lado dos “soft”. Te explico o porquê.

Os mais radicais acham que todo comportamento considerado “incomum” ou “inadequado” deve ser bloqueado. Então, se o autista balança as mãozinhas, ou pula quando fica muito feliz, a tendência dessas pessoas é tentar bloquear esse comportamento e ensinar formas de manifestação mais “aceitáveis socialmente”. Ok.

Aí, entra a parte em que eu discordo. No meu ponto de vista, ensinar comportamentos que são importantes para a sobrevivência e vida em sociedade – como se comunicar de maneira própria e olhar nos olhos das pessoas – é essencial. Isso vai assegurar a independência do meu filho. O resto é frufru. Se ele fica feliz e dá pulinhos, não está ofendendo ninguém. Se alguma pessoa acha isso ridículo e inadequado, problema dela.

Acredito em bloquear (ou redirecionar) comportamentos inadequados quando se trata de auto agressão ou de agressão a outras pessoas. Quanto ao resto, meu papel é ensinar às pessoas “normais” que há várias formas de demonstrar tristeza, alegria e ansiedade. Algumas pessoas ansiosas fumam. Outras comem. Outras se balançam. E por aí vai.

Será que eu respondi a sua pergunta? 🙂

Um abraço,

Andréa

*por solicitação da autora da carta, alterei seu nome.

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