Eu, autista e futura pedagoga

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(Este post foi escrito por uma jovem autista que prefere não se identificar)

Comecei a falar com 1 ano e 9 meses. Mas, ainda que soubesse falar, raramente o fazia. Costumava chorar constantemente, pois não sabia me expressar através de palavras.

Ouvi sobre o autismo pela primeira vez quando tinha nove ou dez anos, na recepção de um hotel, durante uma viagem de família. Uma criança se dirigiu até uma menina que estava perto de mim e perguntou, ‘quer brincar?’. A mulher que estava com a menina, provavelmente a mãe, respondeu, ‘ela não pode brincar. Ela é autista’. Eu não sabia o que isso queria dizer. Imaginei que fosse algo bem ruim. Tão ruim quanto pareciam ser os inúmeros diagnósticos errados que recebi, desde depressão psicótica até transtorno bipolar. Sempre vi o mundo como um quebra-cabeças gigante, no qual eu precisava encaixar as peças certas. Entender os códigos sociais, entender o que as pessoas querem dizer quando na verdade estão dizendo outras coisas.

Quando recebi o diagnóstico de autismo aos 17 anos, foi como se a minha peça se encaixasse pela primeira vez.

Sempre frequentei escolas particulares regulares. Foi muito difícil. Não tinha amigos, e sofri muito bullying, de diversas formas. Desde apelidos até a postagem de uma foto minha em uma rede social, com diversos comentários desagradáveis.

Não gosto de falar. Mas me expresso bem escrevendo.

Também não gosto de barulho, nem de festas, nem de aglomerações nem de verduras. Não gosto de meias nem de luvas. Não gosto de roupas justas e o meu tecido favorito é o de algodão. Mas gosto de muitas coisas. Gosto de animais, de dinossauros, de chocolates, de ver água corrente, de macarrão e de livros.

Gosto também de rotina. Isso me dá estabilidade e confiança. As minhas esperanças pro futuro são que eu ainda tenha pessoas que me amem e a quem eu ame também, que eu não tome mais medicações, que eu tenha muitos animais de estimação e que eu tenha um emprego.

As pessoas geralmente gostam de dizer que aceitam e respeitam as diferenças dos outros, mas poucas querem dar emprego para uma pessoa no espectro do autismo.

Após anos de terapia, eu encontrei a minha própria voz. Uma voz que me permite fazer escolhas e ter parte neste mundo. Aos 23 anos, estou concluindo a minha graduação em Pedagogia, e pretendo trabalhar e me empenhar para que outras crianças autistas encontrem vozes que lhes permitam ter autonomia, capacidade de escolha e o poder de experimentar momentos de felicidade compartilhada ao longo de seus dias.

Os pais podem ajudar as crianças autistas não colocando expectativas nos filhos além do que eles podem de fato alcançar, entretanto, os encorajando a superar os obstáculos diários e buscar momentos de felicidade. Os pais também podem ajudar sendo pacientes e aproveitando as oportunidades que os filhos dão para se aproximarem.

Imagem: Shutterstock

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