Sobre rótulos, transtornos e pessoas

Quando Marta foi demitida de seu primeiro emprego importante, aos vinte e poucos anos e recém saída da faculdade, ouviu que deveria ser um “erro de seleção”. E que era uma pessoa “sem drive” – palavra bonita em inglês que, para eles, significava que lhe faltava vontade de realizar coisas. Depois de um longo papo e em meio a vários eufemismos, ela saiu de lá com vários rótulos: preguiçosa, alheia, impulsiva. Foi embora se sentindo quebrada, anormal, defeituosa.

Marta descobriu, aos 35 anos, que tem Transtorno de Déficit de Atenção.


Oscar é um homem de meia idade, casado e com filhos. Semana passada, ao revirar um baú na casa de sua mãe idosa em busca de uma certidão, achou uma foto em preto e branco, desbotada e com os cantinhos comidos pelo tempo. Ela mostra um garotinho de pernas tortas em seu uniforme escolar. Oscar aperta os olhos e , após focar naqueles cabelos meio espetados, descobre-se ali: era ele na foto. Uma certa tristeza bate no mesmo momento: Oscar nunca se deu bem com essa instituição chamada “escola”. Olhava para as letras, mas não conseguia entender que som deveria sair dali, não conseguia concentrar-se nas formas para traduzi-las. Foi na escola que ganhou os rótulos de “burro”, “desatento” e “analfabeto”. Como resultado, abandonou os estudos no meio da sétima série.

Oscar descobriu recentemente que tem dislexia.

Eduardo é um menino de 3 anos que ainda não fala. Só repete “mamã” muito de vez em quando. Para a família, Eduardo é “preguiçoso” para a idade. A avó dele acha que a mãe é muito desapegada, não o estimula direito, trabalha demais, e daí vem o atraso da fala. No último sábado, seus pais o levaram a um restaurante no shopping. O pai de Eduardo prefere levá-lo no colo apesar de seu peso. Ele comentou, recentemente, com um amigo do trabalho, que prefere fazer assim porque Eduardo é desobediente e atrevido: muitas vezes, sai correndo como se não houvesse amanhã. Neste dia, Eduardo se jogou no chão assim que entrou no restaurante. Batia os braços e as pernas e gritava em um tom estridente. A mãe tentava acudi-lo envergonhada. Os outros frequentadores do restaurante comentavam como aquela criança era desobediente, sem limites e mal educada.

Eduardo foi diagnosticado meses depois com autismo.

Se você parar para contar quantos adjetivos (ou rótulos) eu usei nos parágrafos acima, vai entender meu ponto. Os rótulos fazem parte da vida. Estão aí. “It is how it is”, como dizem os americanos (“é como é”). Mas garanto que se você perguntar à Marta se ela prefere o rótulo de “preguiçosa” ou de “TDA”, ela vai responder a segunda opção. O mesmo aconteceria, em seus respectivos casos, com o Oscar e o Eduardo.

A vida teria sido bem mais fácil para a Marta e para o Oscar se esses “rótulos” de TDA e Dislexia tivessem vindo antes. Eles poderiam ter recebido o suporte adequado e ter desenvolvido estratégias para lidar melhor com as limitações que essas condições trazem.

E o Eduardo, graças ao diagnóstico de autismo passado oficialmente por um médico, agora tem intervenção adequada. Seu plano de saúde não reembolsaria nenhuma sessão de terapia sem esse diagnóstico. E os professores na escola não saberiam onde se informar e o que fazer para gerenciar melhor suas escapadas, seus descontroles, e seu jeito diferenciado de aprender.

E, afinal, por que ter medo do rótulo “autista”? Por que algumas pessoas implicam tanto com o tal “rótulo”? Ser autista é defeito? Não tenho problema algum em dizer que meu filho é autista. O autismo faz parte dele, do jeito dele, dos gostos dele, e não é demérito algum. Autismo não é defeito! Autismo, TDA ou dislexia (ou qualquer outro “rótulo” assim) não significa que uma pessoa vale menos ou tem menos direitos que as outras.

Autismo/TDA/dislexia são palavras que resumem um punhado de características e dão maior clareza às pessoas sobre o que esperar, como lidar, quais são os pontos fortes e os que necessitam ser desenvolvidos.

John Elder Robinson narra em seu livro “Olhe nos meus olhos” como ficou aliviado ao descobrir, depois dos 40 anos de idade, que era autista. Ele sempre se achou diferente, sentia que não pertencia, e o diagnóstico foi um marco no seu processo de autoconhecimento!

O diagnóstico ou rótulo só é negativo se vira estereótipo. Algumas situações exigem a atenção redobrada (dos pais principalmente):

  1. Muitas crianças mordem. Mas se uma criança autista morde o coleguinha, isso pode gerar um problema bem maior. As reações podem ser exaltadas em algumas situações se houver um diagnóstico por trás.

  2. Assumir coisas com relação a uma criança com base no diagnóstico e não nas necessidades específicas dela. Pode acontecer do potencial de uma criança ser menos explorado porque o profissional está vendo o diagnóstico e não a criança.

  3. A própria pessoa deve ficar atenta para não usar o diagnóstico de “muleta”.

De resto, que possamos ajudar nossos filhos a terem orgulho de quem são (e isso inclui qualquer possível diagnóstico). Que possamos ajudá-los e dar o suporte pra que eles sejam o melhor que puderem ser! E que tenhamos orgulho de quem somos e do que alcançamos com todos os nossos “rótulos” e peculiaridades.

Hoje em dia, sabemos muito mais sobre transtornos neurológicos do que na época dos nossos pais ou avós. Os diagnósticos (ou “rótulos”) não resumem a vida de uma pessoa a algumas linhas e nem o que ela é capaz de fazer. Mas eles podem ajudar muito a entender profundamente um indivíduo, para que ele possa, através das ferramentas certas, atingir todo o seu potencial.

Imagem: Shutterstock

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