Autismo e seletividade alimentar


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Tivemos um período um pouco mais chato com o Theo por volta dos 2 anos: o que ele já comia continuou. Mas ele passou a recusar alimentos novos.

Faz uns 2 anos que ele começou a ficar mais maleável a tentar o que a gente oferece. Mas morro de rir da cara de “nojinho” e das pontinhas de dedos que ele usa pra segurar. Nem parece o menino que, de vez em quando, passa a mão no chão e lambe.

Atualmente, ele come arroz, feijão, todas as carnes, purê de batata e mandioquinha, macarrão, pão, biscoitos em geral, pipoca, a maioria das frutas…só não é muito fã de verde. Tira com o dedo até a salsinha do molho.

Já que o cenário em casa não contribuiu pro meu aprendizado na marra, tive que fazer uma pesquisinha. E aí vai o resultado dela!

Em um estudo amplo, foi analisada a seletividade alimentar de 138 crianças autistas contra 298 crianças típicas entre 7 e 9,5 anos. Os pais preencheram questionários para listar qual a variedade de alimentos que cada criança consumia. Os relatórios de pais de crianças indicaram que seus filhos recusavam significativamente mais alimentos e tinham uma dieta menos variada quando comparados aos relatórios dos pais de crianças típicas. Além disso, as crianças autistas comiam menos alimentos de cada grupo alimentar: em geral, metade dos alimentos de cada grupo. Elas também eram mais propensas a recusar comidas com muita textura, preferindo as do tipo “purê”. A conclusão foi que, realmente, as crianças autistas têm mais seletividade alimentar que as típicas. (Schreck KA, Williams K, Smith AF. A comparison of eating behaviors between children with and without autism. J Autism Dev Disord. 2004;34:433–438)

Nesses anos de blog, já vi de tudo: criança que só come miojo, só come arroz, só pastoso, só frio, só amarelo. A verdade é que a recusa alimentar pode ter várias causas: físicas (como uma dificuldade em mastigar ligada à hipotonia), comportamentais e, principalmente, sensoriais (rejeição a aromas ou texturas).

Quer experiência mais multisensorial que a alimentação? Lembrem-se de que nossas crianças, em sua maioria, possuem Transtorno de Processamento Sensorial.

Por mais que a minha experiência aqui seja “pobre” nesse aspecto, algumas dicas eu posso dar:

  1. Theo se interessa pelo que comemos na frente dele. Então, tentamos comer aquilo que nos interessa que ele coma.

  2. Com o Theo, aprender a tolerar é tudo. Quando eu quero que ele prove alguma coisa, se o interesse não surgiu por si só, eu deixo na mesa. Na próxima refeição, coloco próximo ao prato. Depois, no prato. Quando ele tolera aquilo no prato, tento convencê-lo só a tocar. Depois a cheirar. Depois, encostar no lábio. Depois na língua. Pequenos passos, muita paciência, e ele vai tolerando, deixando e, quando vemos, provou.

  3. Um erro que cometi e não quero que vocês façam igual: jamais tirem do prato o alimento que ele comia e começou a recusar. Depois, ele não aceitará de novo. Então, se ele comia arroz, feijão, bife e brócolis e, um dia, não quer mais o brócolis, não deixe de oferecer nas próximas vezes. Se você não fizer isso, pode ser que o próximo passo seja rejeita o bife. E lá vamos nós só pro arroz e feijão. SEMPRE deixe no prato, por mais que a criança não coma!

  4. Maracutaias de mãe de criança seletiva: enfiar cenoura no molho bolonhesa, beterraba no feijão…dá pra “vitaminar” muita coisa e eles nem notam! Eu tenho colocado chia e aveia nas almôndegas caseiras que faço pra ele. Ele ama e nem nota algo de diferente!

  5. Nunca ofereça doce ou sobremesa como prêmio. Você acaba supervalorizando a sobremesa e não a refeição.

  6. Rotacione as opções de alimentos para não criar rigidez depois. Dar sempre o mesmo biscoito quando seu filho chega da escola pode fazer com que você nunca mais saia desta opção! Se a criança sabe que vai sempre tomar um copo grande de leite antes de dormir, pode ser que coma menos no jantar, por exemplo.

  7. Coloque a criança para ajudar na preparação dos alimentos. Theo AMA ajudar na cozinha, mesmo que, às vezes, acabe é atrapalhando. 🙂

  8. Dê a ilusão do controle: mostre as fotos do que ela ou ele pode escolher para o almoço ou jantar por exemplo (exemplo: purê e carne versus macarrão).

E, para encerrar, é importante que a criança seja avaliada pela equipe que cuida do seu desenvolvimento para entender se a questão deve ser trabalhada pela fono, pela psicóloga ou até pela terapeuta ocupacional. A integração sensorial pode ajudar muito se a recusa vier dessa parte. Li alguns textos onde as terapeutas ocupacionais sugerem até abaixar a luz na hora da refeição para diminuir o input sensorial da criança, para que ela aceite melhor certos cheiros e sabores.

Importante ressaltar: nunca, NUNCA force seu filho a comer nada! Nenhuma tática baseada em violência pode dar certo! Com muito amor, trabalho em equipe e paciência, os progressos podem vir!

P.S: Se você se interessar por uma revisão grande de estudos científicos sobre autismo e seletividade alimentar, clique AQUI.  

(Os conteúdos produzidos por Andrea Werner e disponibilizados neste site são protegidos por copyright e não podem ser reproduzidos, total ou parcialmente, sem autorização expressa da autora, mesmo citando a fonte)

Foto: Shutterstock

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